A influência dos hábitos para a fertilidade

Cultivar bons hábitos é a peça chave para uma vida saudável e para os casais que estão a espera da cegonha não é diferente. O especialista em reprodução humana, Dr. Fábio Padilla explicará a influência dos hábitos para a fertilidade.

Nosso corpo é resultado do que comemos, do que bebemos, dos exercícios que fazemos (para o corpo e para a mente), das toxinas a que somos expostos… Enfim, somos o resultado da influência do mundo sobre nosso corpo. Porém a maioria dos casais que está tentando engravidar desconhece a importância dos fatores ambientais na fertilidade e na gravidez.

Para entender qual a importância do meio ambiente no nosso sistema reprodutivo, gosto sempre de fazer uma comparação com algo que vemos no nosso dia a dia – a formação de uma flor por uma planta: todo ser vivo, como nós e as plantas, tem como prioridade, mesmo sem consciência disso, ficar vivo. É por isso que retiramos a mão rapidamente e sem pensar, por exemplo, quando encostamos num prato quente. Isso vale para nós e vale para as plantas.

As plantas precisam de água e luz solar para viver, dois elementos que diminuem no ambiente no nosso inverno – por isso elas não se dão ao “luxo”de gastar energia desenvolvendo flores nesse período. No momento ficar vivo é a prioridade, gerar descendentes não. O resultado são plantas murchas, sem cores e sem flores. Apenas sobrevivendo. Na primavera, porém, com abundância de água e luz solar, as plantas podem finalmente se dar ao luxo de produzir flores, e com isso gerar seus descendentes.

O mesmo vale para nosso corpo. Não dependemos apenas de água e luz solar, mas, como as plantas, podemos estar expostos a fatores mais ou menos saudáveis, e nosso corpo vai priorizar sempre a nossa vida, podendo dedicar mais “atenção” e desprender mais energia para a produção de descendentes quando não precisa se preocupar em eliminar fatores ambientais negativos, como o cigarro, o álcool, drogas ou exposição a radiação, ou outros contaminantes ambientais.

Cigarro

O cigarro contêm mais de 4000 componentes químicos, incluindo pelo menos 43 que causam câncer — principal efeito negativo do cigarro, conhecido por 99% das pessoas. Porém estudos mostram que apenas 22% das pessoas sabem que o tabagismo representa um problema para casais que querem engravidar.

Estudos mostram que o cigarro é um dos grandes responsáveis pelo atraso na concepção de casais que querem engravidar, chegando a aumentar o risco de infertilidade (mais de um ano tentando) em até 60% em casais onde a mulher fuma, quando comparadas a não fumantes.

O cigarro diminui a reserva ovariana da mulher (mulheres tabagistas entram na menopausa de um a quatro anos antes das não fumantes!), além de ter efeito direto alterando a produção hormonal (mulheres tabagistas tem FSH 66% maior que não fumantes; fumantes passivas tem FSH 33% maior!).

No homem o cigarro pode alterar sistemas de defesa dos espermatozoides contra oxidação, além de muitas vezes ser responsável por alterar a movimentação e até a morfologia dos espermatozoides. O cigarro pode atrapalhar também por ser um fator importante numa eventual disfunção sexual.

O cigarro é capaz de alterar o DNA de óvulos e espermatozoides pelo seu potencial de causar mutação. Isso leva não só a diminuição de taxas de gravidez naturalmente, como ao aumento na incidência de aborto.

Álcool

O álcool, assim como o cigarro, é capaz de alterar a produção de hormônios, sendo que em casos mais graves pode alterar até mesmo o ciclo menstrual. Atualmente, o consumo moderado de bebidas alcoólicas tem sido associado até mesmo ao desenvolvimento de endometriose.

Na gravidez o consumo de álcool aumenta o risco de abortamento espontâneo, além de ter relação com baixo peso do bebê e no aumento do risco de doenças congênitas.

No homem o álcool tem relação com alteração de morfologia dos espermatozoides, além de alteração na movimentação deles. Pode também ser um eventual fator importante numa disfunção sexual.

Obesidade

A obesidade é uma doença que predispõe a uma série de outras doenças, como alterações cardíacas, diabetes, hipertensão arterial, dislipidemia, alguns tipos de câncer, além de diminuição na qualidade de vida em geral. Ela é definida pelo IMC (Índice de Massa Corpórea), calculado da seguinte maneira:

Peso
(Altura)2

Quando esse valor é superior a 30 kg/m2, fazemos o diagnóstico de obesidade (de 25 a 30 já chamamos de sobrepeso).

A obesidade está relacionada a uma série de alterações hormonais, sendo que 30 a 50% das mulheres obesas tem alteração no ciclo menstrual. A obesidade pode alterar a ovulação, consequentemente, altera a fertilidade. A perda de peso normalmente regula novamente o ciclo dessas mulheres, com a consequente recuperação de fertilidade.

Além das alterações na mulher, a obesidade pode alterar a produção de espermatozoides no homem. Homens obesos tem de 3 a 3,5 vezes maior chance de ter alterações na movimentação e na morfologia dos espermatozoides quando comparados a homens com peso normal.

A obesidade ainda é um fator que pode atrapalhar durante a gravidez. Mulheres obesas tem risco maior de desenvolver quase todas as doenças obstétricas, mas principalmente aumento de pressão e diabetes gestacional.

Outros

Como dissemos no início desse texto, tudo que interage conosco, pode trazer impactos positivos ou negativos na nossa saúde e consequentemente na fertilidade. Dentre fatores negativos para a fertilidade, podemos destacar ainda:

  •  Cafeína: relação com diminuição de fertilidade e aumento de taxas de aborto quando ingerida em quantidade muito alta. Mas tem gente que toma muito café… 2 xícaras por dia não será problema;
  • Poluição: Cada vez mais importante na nossa vida, já existe uma série de estudos mostrando que a poluição atmosférica é capaz de interferir em fatores de fertilidade tanto no homem quanto na mulher.
  • Radiação: exposição mais incomum, exceto em pessoas que são submetidas a tratamentos específicos de radioterapia. Nesses casos é recomendado tratamento de preservação de fertilidade com congelamento de espermatozoides, óvulos ou embriões antes de iniciar a radioterapia.

A exposição aos principais fatores ambientais negativos que temos contato no nosso dia a dia pode ser evitada. Perder peso, parar de fumar, ter uma dieta equilibrada, fazer exercícios físicos, não ingerir bebidas alcoólicas ou drogas… A mudança no estilo de vida do casal aumenta a possibilidade de gravidez espontânea e as taxas de sucesso em tratamentos de reprodução assistida. Além disso, mudar os hábitos positivamente criará um ambiente mais saudável que, a longo prazo, servirá de exemplo para que seus filhos tenham também uma boa qualidade de vida!

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